Vikings: Invasão e conversão – Por Dinho Negryne

Vikings: Invasão e conversão

A série Vikings (2013), realizada pela televisão irlando-canadense e produzida pelo canal History está entre as que fazem sucesso com os apreciadores desse formato audiovisual (episódios semanais de aproximadamente 45 minutos), não apenas pela grande produção, hoje muito comum nos programas de televisão estrangeiros, mas pela boa estória, aventura, riqueza dos personagens e lirismo mostrado em algumas cenas, além da verossimilhança imprescindível ao que se propõe o canal de tevê com esse nome.

Criada por Michael Hirst (Os Borgias; Camelot), Vikings conta a saga de Ragnar Lothbrok (Travis Fimmel), que liderou os nórdicos nas invasões e saques ao oeste da Península Escandinávia, a partir do século VIII d.C. e graças a pelo menos sete historiadores na equipe de produção, nos traz os costumes, a cultura, o que inclui sua crença na mitologia nórdica aliados à ficção.

A religiosidade é um dos elementos na trama, a qual é inicialmente mostrada de forma poética quando vemos na primeira cena Ragnar tendo uma visão de Odin, o maioral e suas Valkírias levando os mortos em campo de batalha para Valhalla, salão dos mortos, que fica em Asgard onde ele governa. Esta cena introdutória já deixa claro o que permeará a série. Falar dos Vikings sem mencionar a violência e a brutalidade peculiar seria subestimar o espectador, bem como seus deuses, alguns já mostrados em adaptações do cinema, como por exemplo, Thor, o deus do trovão e seu irmão Loki, ambos filhos de Odin.

Os pagãos (termo usado no cristianismo para aqueles não batizados) encontram em sua empreitada expansionista os “descrentes” em sua religião. Ao chegar ao templo em Lindisfarne, Inglaterra, os Vikings se defrontam com um dos seus futuros algozes, embora não aparentem: os cristãos.

A chegada é em uma noite de tempestade, e através do ponto de vista do personagem Athelstan (George Blagden), um monge, vemos nas nuvens, o formato da embarcação viking, o que para ele é o prenúncio do juízo final, a besta que emergirá do mar, o apocalipse. No mesmo momento, tal conflito, também vive outro carismático personagem, Floki (Gustaf Skarsgård), o construtor dos barcos que navegavam tanto em mar aberto quanto em águas rasas, se perguntando a razão de Thor bater com seu martelo mjölnir na bigorna.

(causa dos raios e trovões), porém, logo ele retoma sua fé e confiança, acreditando ser um tipo de apoio do deus do trovão.

Ao Suprimir letra F no nome Floki, nos remetemos a Loki, deus da trapaça, irmão de Thor, e cito a personificação de traços da personalidade desta divindade na construção da personagem. Interessante mencionar que Loki é o dono da máscara encontrada no filme estrelado por Jim Carrey, O Máscara (1994), que o faz assumir a forma que quiser.

Floki é muito amigo de Ragnar Lothbrok, e vemos pela segunda vez seu antagonismo com Athelstan, quando o líder da expedição decide poupar o monge cristão. Ragnar, de certa forma se intriga com Athelstan, que se abraça a uma Bíblia e o indaga: “com tantos tesouros aqui, você protege isso?”.

Athelstan é levado cativo e sua relação com Ragnar cresce, assim como suas descobertas da cultura, diferenças e semelhanças entre as religiões, como, por exemplo, o Ragnarok nórdico e o Armagedom cristão. Ao participar de um ritual, o monge é indagado por um sacerdote a respeito de haver renegado sua fé, e como Pedro na Bíblia, Athelstan nega a Cristo por três vezes, mesmo assim, o ritual não prossegue, pois o sacerdote percebe não ser verdadeira a afirmação.

Inevitavelmente, a interação com os anglo-saxões cravaria marcas nos vikings, enquanto Ragnar também aprofunda seu interesse na religião do amigo, que o ensina a oração do Pai nosso. Em certo momento, Ragnar Lothbrok exige ser batizado por um sacerdote cristão, o qual se nega e diz que ele irá para o inferno, Ragnar retruca: “Essa não é uma decisão sua…”, e apontando o rio diz: “aqui está água e este (o padre) um homem de Deus”, demonstrando já ser conhecedor de pontos importantes do cristianismo.

 

A série mostra que esse choque cultural afeta adeptos de ambas as religiões, representados por Ragnar e Athelstan. Michael Hirst nos apresenta tal situação esplendidamente com plásticas cenas. Através de uma narrativa poética vemos Athelstan confuso, desacreditando em suas antigas convicções, enxergando chagas em suas mãos, tendo visões de um homem que podemos considerar uma representação de Jesus Cristo, ou, ainda, quando é atingindo por uma luz que o derruba ao solo, e ao levantar-se, simboliza um renascimento, a sua verdadeira conversão ao cristianismo. Por sua vez, Floki é o fundamentalista da crença nórdica e não admite a conversão nem mesmo por fingimento,como acontece com Rollo (Clive Standen), o irmão de Ragnar. Ele expõe a sua posição antagônica a Athelstan não apenas por ameaçar sua condição de melhor amigo de Ragnar, mas por ser membro da religião que para ele deve ser exterminada.

É, portanto, inexorável a influência do cristianismo no roteiro da série, inclusive, havia uma oração específica na época que dizia: “Senhor, livrai-nos da fúria dos homens do Norte”, além de não haver dúvidas de sua importância em mudanças na história da humanidade. Passamos a entender como a relação com os povos das nações invadidas pelos vikings os influenciaram. Certamente, a absorção não foi absoluta nos primeiros anos (ou séculos), o sincretismo pode ter ocorrido no processo, mas alguns aspectos foram logo assimilados, como por exemplo, a organização política e social instituída pela igreja católica.

É inegável dizer que além de assassinatos e estupros, esses homens oriundos da Dinamarca, Noruega e Suécia também levaram consigo suas tradições pelo mundo, tais como: a troca de anéis e uso de grinalda na celebração do casamento; o festival celebrado no inverno e o costume de enfeitar árvores, especialmente pinheiro, bem como uma versão precursora do Papai Noel (São Nicolau). Na língua inglesa, algumas palavras foram inspiradas nos deuses nórdicos, como os dias da semana: Tuesday é o dia de Tyr, deusa da guerra; Wednesday, o dia de Woden (Odin); Thusday, dia de Thor; Fryday, dia de Freyja, deusa do amor e fertilidade. Também Slave (escravo), originada dos cativos eslavos; Hel, deusa da morte, que originou Hell (inferno); Rape (estupro), entre muitas outras.

Portanto, Vikings já caminha para a quinta temporada e vai além de apenas entretenimento, assistimos um pouco de história e conhecemos muito sobre aqueles homens e mulheres que navegaram pela Europa, Ásia Central e até mesmo a América.

Dinho Negryne é professor de Inglês, cantor, compositor, fã de cinema e amante das letras.

Vikings – Série de TV 2013

Produção: History/ Octagon Films e Take 5 Productions

Criador: Michael Hirst

Distribuição: MGM Television

Bibliografia: Vikings: A Saga

Editora Abril- São Paulo 2015

Dossiê Superinteressante

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