Um texto para o idoso que há em você! Por Fernando Macedo

Você os escuta e eles sempre tem algo a falar, são pessoas com experiências das mais diversas, alguma tristes, outras alegres e ainda outras espetacular!

Neste encontro de hoje, todos estavam alegres, vez em quando mais que alegres quando o lúcido e humorista sr. João começa a se apresentar com suas piadas boa parte das vezes inapropriada para crianças menores de 12 anos (risos). Mas é um maior barato, pois todos residentes gostam, as vezes percebemos a funcionária tentando filtrar pedindo a ele menos tempero picante, mas ele continua para alegria de todos.

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Ali o bom humor faz mais que necessário, talvez a ausência de um sr. João ali faria um ambiente se tornar o mais hostil e impossível de conviver.

A Didi, é a ética em pessoa, obediente até o fim, talvez por ainda ser a mais novinha da casa, esteja ainda se ambientalizando cheia de toques, com um tom de voz sereno esconde dores de rejeição de sua própria prole, mas não pense que este texto vai começar a lhe deixar para baixo com esta noticia, de seus próprios lábios ela declara em alto e bom som: “ Mas ganhei uma nova família!”. Passados apenas alguns minutinhos conversando com ela, foram suficientes para sentirmos seu carinho. Ela nos disse que gostaria muito de saber (ainda que figuradamente) que tinha algum filho vindo vê-la e visitar, então fizemos um favor a ela, dissemos que ela poderia ter em nós esta figuração adotiva e isto foi muito significante para ela.

Sr . Japa, o único sobrevivente da família, oriundo do Japão não lembra mais a língua nativa, nem lendo nem escrevendo fala o português melhor que alguns brasileiros. Foi encontrado por nós sentado de forma isolada no sofá, era seu aniversário e por ocasião de nossa visita com o bolo aquele dia não passou em branco, além disso 1º de outubro foi a data em que comemoramos o dia internacional do idoso.

Nossa visita teve o intuito de levar alegria e amor, mas confessamos que lá não entregamos nada apenas recebemos. Foram momentos maravilhosos, sentamos com eles, bebemos e comemos, conversamos sobre tudo e com todos, deixávamos que eles falassem, não faltavam assuntos, era sobre dentadura, romances no lar, romances do lado de fora, as paqueras do sr. João.

Tudo parecia bastante saudável, até mesmo entre os funcionários do Lar, nem mesmo pareciam que eram pagos para estarem ali cuidando de pessoas desconhecidas e em momentos delicados de suas vidas, víamos neles a essência do amor. Os velhinhos reconheciam isso tecendo os melhores elogios a todos ali.

Sr. Sebastião era o pastor do grupo, de estilo conservador, em qualquer oportunidade em que ele tinha tinha que lhe arguir sobre sua fé em Jesus, o mais avançado em idade no Lar, aos 96 anos esbanjava simpatia mesmo com algumas imposições acerca do que acreditava ser o evangelho, em certa oportunidade ele disse que nossa visita era muito boa, pois era a oportunidade de ver pessoas bonitas, e fitando os olhos em Thais disse ser um colírio aos olhos e que a mais nova do lar tem 60 anos. (Risos).

Ao nos despedirmos, fomos presenteados com flores artesanais criadas por mãos cansadas porem talentosas. Todos reunidos próximo ao portão de saída acenando para nós e nos pedindo que voltemos foi um momento doloroso ao coração.

Sim, aqui ao menos nesse texto não quis dar ênfase ao abandono dos filhos e nem por quais razões eles foram parar ali. A grande moral deste texto é que somos ensinados constantemente que apesar de dores e perdas em sua maior parte inesperadas como um golpe de faca no coração não foram a eles suficientes para tirar a alegria, pelo contrário serviam de combustíveis as lembranças por vezes rindo de si mesmo e dos seus novos irmãos do Lar.

Aprendemos que velho é o álibi que usamos para não exercer a prática da paciência no cuidado com eles em suas dificuldades de ouvir, de andar, de falar e de se adaptar aos novos hábitos tecnológicos e o nível de ativismo desta vida de correria dos até então novos sequer se compara com os elementos antigos e ainda vivos em suas memórias como: vento, chuva, calor e sol. Em seus esforços de aprender novos hábitos se pegavam relembrando com seus olhos miúdos, enrrugados boa parte deles diagnosticado com catarata ou glaucomas mas que ainda assim não os impediram de enxergar na memória no ápice de suas vidas o cocô da bunda seus filhos, que sujavam não em fraudas descartáveis, mas em fraudas de panos, sim de panos que eram esfregados e lavados reutilizados e cheirosos para depois serem lambuzados por novos “côcores”. Seus ouvidos não eram poupados ou substituídos por de babás, ou por creches, enquanto você estava ausente. Eram eles mesmo que se dispunham de “perder” tempo e prazeres pelo simples fato de ter que parar para cuidar de quem sabe você que está aqui lendo estas entrelinhas. Quem sabe o motivos de seus hoje sensíveis ouvidos ao ponto de perder a audição não foram pelo esforços de ter que escutar-lhe chorando e gritando por mais comida e bebida ? quem sabe as dores das pernas e varizes não são de tanto ter corrido atrás de você brincando ou trabalhando com enxada na mão ?

Termino dizendo que você não conquistou o mundo e não se tornou aquilo que perfeitamente você havia descrito em seus diários de papel ou de memórias, nem tudo que você conquistou foi suficiente para atingir suas expectativas de sempre querer mais, e que você cansou de ensaiar o discurso de que não tinha tempo, até que se tocou que este tempo passou. Talvez você tenha corrido tanto atrás de coisas muito mais do que sequer era necessário. Talvez você tenha conquistado tantas coisas que acabou perdendo a alma, sua e a de seus velhos. Talvez você ainda consiga ter tempo de ligar para eles, ou quem sabe ir até eles e dizer o quanto eles significaram ou ainda significam para você. E que apesar de toda forma de criação que eles lhe deram por mais dura que tenham sido, não impediram de fazê-lo perceber que era para o seu bem. E que seus “velhos” se já não foram embora descansar nos braços do Eterno, estão lá, em algum lugar esquecido ou deixado de lado por você não ter tido paciência suficiente de ao menos retribuir o que eles fizeram por você. Quem sabe a educação que você está dando aos seus filhos sejam diferentes né, será ? E que eles vão largar tudo que você os ensinou a conquistar para ficar com você na velhice né? Mas quer saber? Quem sabe este texto não tenha servido apenas para lembrar-lhe de que um dia você também ficará velhinho, sujinho, sem ouvir direito, sem enxergar direito, e dependendo de pessoas para ver sua nudez externa? Lembre que você só tem duas opções, ou morrer cedo e não querer ser velho, ou ser velho e passar por tudo que talvez você não compreenda em seus velhos hoje.

Sempre é tempo de se fazer o final valer apena quando no começo já passou!

Pense, ame e continue amando!

Feliz dia do idoso!

Fernando Macedo

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