INTERREGNO – Por Dilson Cunha

INTERREGNO

Entre o fim do mundo e o mundo pós-fim. Conta o foclore internetiano que enquanto caminhavam um menino teria dito à sua mãe: _Olha, mãe, um Twitter! _Não filho, é um pássaro! – retrucou a mãe. Engraçadinha a história, não? Não! Trágica, talvez, mas não engraçada, justamente porque indica o quão distante estamos da natureza – e, porque não, da própria vida – nesse mordeníssimo mundo tecnológico. Isso me lembra uma pesquisa feita por alguns sociólogos anos atrás onde, dentre outras coisas, quando perguntaram “de onde vem o leite” a crianças de classe média, elas responderam “do supermercado”. Para quem lê rápido (ou para quem não queira ler), isso vira apenas uma anedota urbana, mas um olhar um pouco mais atento descortina não mais um prenúncio mas a própria hecatombe. A história dos últimos 250 anos foi a história de nossa gradual mas intensa clivagem entre o mundo natural e o artificial. Separamo-nos da natureza, não sem nos insurgirmos contra ela, claro. O grande historiador e filósofo francês Jules Michelet, que no século XIX dizia “o homem é atroz, a natureza é atroz, mas parecem entender-se”, hoje não diria mais isso, não. Hoje é a vez da natureza. E muito menos por sua ação que por sua reação a tudo que fizemos. A imagem que correu o mundo há poucos dias de moradores da mais rica região do planeta captando água da sarjeta, chocou os até os mais otimistas dessa aldeia global. Segundo a Nasa, por conta da frenética perfuração de poços profundos em busca de água, a Califórnia está afundando incríveis cinco centímetros por mês. O planeta se exauriu e cansou. Nesses dois últimos séculos, viemos confundindo pássaro com Twitter, macã com “Apple”, comida com Big Mac, amizade com ‘likes’ e ‘dislikes’. Ou seja, perdemos o mundo da ‘natureza’ ou de ‘Deus’, como queiram. Ficamos mecanicistas, reduzimos tudo a processos técnicos. Nosso empoderamento científico nos levou ao mais inimaginável topo da supremacia do ‘homo’ cada vez menos ‘sapiens’, que confunde tecnologia com natureza, signo com mundo real, mitos com mundo 3D. Perdendo qualquer uma dessas dimensões, a natural ou a divina, fomos ficando cada vez menos simbólicos e cada vez mais sígnicos. Ficamos ocos. Plasmamos, mas fomos plasmados também. Fomos secando, como a Califórnia, e afundando. E “ainda que andássemos pelo Vale do Silício”, teimamos em “não temer mal algum”. Demos sequência a nossos ensaios sobre a cegueira. Nossa inabalável fé cientificista nos traiu. Esse distanciamento do mundo resultou naquilo sobre o que falou Le Breton, de que o homem não é mais o eco do mundo, nem o mundo é mais o eco do homem. São estranhos entre si, não se reconhecem. Esse homem pós moderno está perdido, ilhado e assustado no limiar de uma nova, mas ainda desconhecida, ordem ou realidade. Está num interregno (entre reinos), como os antigos que vivenciaram a ruína do império romano. Distópico mundo! Onde nem o capitalismo, com sua tragédia californiana, nem o socialismo, com sua tragédia do mar Aral, lhe garantiram conforto eterno. Não sabe ele ainda que mundo virá, mas já começa a ter clareza de qual mundo está acabando. Não demos ouvidos aos filósofos de Frankfurt e suas críticas à modernidade, à razão, ao cientificismo e ao tecnicismo e que recusaram os dualismos. Somos hoje saudosistas de Horkheimer. Somos saudosistas de Nietzsche e de John Muir (“toda vez que tocamos algo na natureza, causamos reverberações no universo). Somos, antes ainda, saudosistas do velho Bruegel e seu magistral “O Triunfo da morte”. E, ainda antes, saudosistas do profeta João de Patmos. Talvez não seja ainda nosso definitivo “apocalipse, now”. Talvez não seja o fim do mundo. Mas que é o fim de um mundo, isso é. Estamos num interregno. E todo interregno é aquele instante em que nos damos conta de que perdemos algo. E como bem destacou o grande Jorge Luis Borges, “não há outros paraísos senão os paraísos perdidos”. Fim.

dilson cunha

 

 

 

 

Dilson Cunha
23.08.15

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