A busca de PI – Comentado por Dinho Negryne

A busca de PI

                 Quando vi o filme As aventuras de Pi (2012), do diretor Ang Lee (Hulk, 2003, O Tigre e o Dragão, 2000), tive a impressão de estar diante de uma obra indiana, não apenas pela ambientação da trama, mas porque o cinema daquele país é bastante conceituado, visto e respeitado, inclusive pela indústria norte-americana, a qual emprega muitos atores e diretores em suas produções, claro que, também, para atingir as comunidades indianas e seu mercado. E o filme nos remete, inevitavelmente, a cultura, costumes e crenças religiosas daquele país.

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                 O personagem chamado Pi Patel é um garoto que busca encontrar Deus num lugar onde existem várias religiões. Somente no Hinduísmo há mais de trezentas divindades, e nesta crença, os deuses se apresentam através de vários animais, por isso são venerados macacos, vacas, serpentes etc. Isso compele o protagonista a se arvorar em algumas delas, incluindo o Islamismo. É claro, que mesmo em sua casa, Pi encontra um pouco de resistência de sua família por essa inconsistência no que acreditar. Seu pai lhe indica a razão e diz: “Religião é escuridão… acreditar em tudo é acreditar em nada”.

Mas a luz começa surgir quando o menino conhece o catolicismo, que vem juntamente com um turbilhão de dúvidas como: Qual o propósito da crucificação? Que tipo de amor é esse que manda seu filho para a morte?

Quando sua família decide mudar-se da Índia para o Canadá em um navio, este naufraga no meio do pacífico e, em meio a tragédia, Pi tem seu encontro com Deus sem intermediação de religião alguma.as-aventuras-de-pi

 

Ele sobrevive em um bote que fica a deriva com um tigre chamado Richard Parker, um dos animais transportados pela sua família, que possuía um Zôo. É nesse momento do filme que o premiado diretor Ang Lee e seu diretor de fotografia dão um verdadeiro show nas cenas (ressaltando que as belas imagens estão desde o começo do filme), o que o fez vencedor do Oscar da categoria em 2013 (Melhor Fotografia), além de melhor Diretor.

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Lee transmite a descoberta de Deus pelo então adolescente Pi com ótimas cenas. Em uma delas, o bote é mostrado de cima, como se Deus o observasse. As preces do jovem náufrago são contrastadas com o crepúsculo, o que podemos interpretar como uma interlocução, na qual, enquanto ele fala o Criador o escuta. Entretanto, o jovem é testado, tal como Jó, que mesmo já conhecendo Deus, passou por aflições. Em um determinado momento, Pi, que era vegetariano, consegue pescar e matar um peixe do tipo que ao morrer muda de tonalidades de cor. Ele chora e acredita que foi providência de um deus hindu, Vishnu. Uma tempestade é mostrada com se fosse a fúria do verdadeiro Deus.  Após a calmaria, o protagonista percebe que enfrentou seus medos, analisa a sua relação com a fera carnívora com quem tem que conviver, abre seu coração e declara: “Deus veio até nós!”

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Esta obra cinematográfica exibe imagens espetaculares, as quais podem ser interpretadas como a perda de noção do personagem em distinguir delírio e sonho de realidade, ou apenas como a intenção do diretor Ang Lee em explorar cores, privilegiar a arte, mesmo sendo muitas delas computação gráfica, igual a uma criança que pinta seu desenho de cores distintas “só pra ficar bonito”. Mas a busca do protagonista por seu criador, bem como o seu feliz encontro que é, inclusive, compartilhado por ele, é o que me fazem recomendá-lo.

 

As Aventuras de Pi (Life of Pi).

 

Gênero: Drama.

Lançamento: EUA, 2012.

Estrelando: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Gérard Depardieu.

Direção e produção: Ang Lee.

Distribuição: 20th Century Fox.

Dinho Negryne é professor de Inglês, cantor, compositor, fã de cinema e amante das letras.

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